A escola para todos

Não podemos comparar nosso sistema educacional com o de outros países porque as realidades são outras, mas podemos, sim, observar casos em que a educação dá certo. 
Morei 10 anos no Japão. Quando cheguei lá, com 20 anos, logo me identifiquei com a comunidade brasileira e convivia com eles. Observei que as crianças, filhos de brasileiros, chegavam na escola e iam imediatamente para a série indicada para a sua idade, elas não sabiam falar japonês, não sabiam os conteúdos de gramática ou geografia que os outros estudantes daquela sala sabiam, mas conforme o sistema educacional japonês, deveriam ficar naquela série por causa da idade. Aos poucos percebi que todas essas crianças brasileiras em 3 meses já estavam se comunicando fluentemente em japonês, então apreendiam mais do que o esperado para uma criança daquela idade. Existem provas, mas elas são para os professores, os pais e as crianças fazerem um diagnóstico de como anda o aprendizado. 
Uma vez questionei uma professora japonesa sobre como pode uma criança avançar para a série seguinte mesmo não tirando notas boas na avaliação e ela me disse: "Ora, ela fez aniversário, mudou de idade, por que não vai mudar de série?" Durante os anos fui observando mais atentamente e esse assunto foi cada vez mais me fascinado. Quando comecei a trabalhar aqui no Brasil em escola pública foi inevitável  relacionar os nossos métodos com os japoneses. Não acho que tenhamos de mudar imediatamente, mas não podemos aceitar índices de reprovação como os que aí estão. Como não queremos que seja indisciplinado um aluno que tem 15 anos que está no sexto ano com outros de 11 anos, em uma aula de Língua Portuguesa que o professor traz uma fábula que encanta os que estão na idade certa para a sua série? Retendo esse aluno para que ele conviva com menores que ele, com assuntos que não são atrativos para a idade dele, não estaríamos nós gerando a indisciplina na escola? Ou então não queremos que este aluno continue na escola, já que ele não aprendeu, não tirou nota boa nas avaliações, ele deve sair da escola? Mas a intenção não era manter, ou trazer as crianças para a escola?

Uma vez, na sala dos professores, alguém disse estar indignado em ter de aprovar um aluno que não tinha atingido nota suficiente, justificando que não sabia como esse aluno se sairia em uma entrevista de emprego sem saber tal coisa. Eu argumentei, na defesa da aprovação, que não é nossa função selecionar pessoas para o mercado de trabalho, nossa função é proporcionar que essas pessoas aprendam o que tiverem condições de aprender. Nós, claro, fazendo o possível para que esse aprendizado seja de qualidade, porque nossa categoria tem uma função social de imensa importância

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